As relações entre o Estado e o poder paralelo acumulado por facções criminosas sempre foram faladas “à boca miúda” pela população. Desde que o Rio de Janeiro passou a exportar um modelo de negócio relacionado ao narcotráfico, a Bahia passou a lidar com tais relações de mutualismo, por uma questão estratégica para os dois lados da moeda. A colaboração premiada de Joneuma Neres e a implicação do ex-deputado federal Uldurico Jr. são “a prova que faltava” de que os limites entre o que é Estado e o que é um estado paralelo já não são invisíveis.
Uldurico Jr. é de uma família tradicional da política na região Extremo Sul da Bahia. Eleito por dois mandatos para a Câmara dos Deputados, não dava para tratá-lo como um mero principiante. Tanto que o poderoso MDB não teve constrangimento em tê-lo em seus quadros, apoiado na campanha para prefeito de Teixeira de Freitas por partidos como PT, PCdoB, PSDB e PSB. Foi naquela campanha, de 2024, que a imbricação da história dele com o tráfico começou, segundo o relato de Joneuma. Ali, Uldurico iniciava negociações por votos de maneira nada republicanas.
Porém, o ex-deputado federal foi além da troca de votos por dinheiro via cooptação. Para evitar lidar com dívidas de campanha, aceitou tratar diretamente com o chefe do Primeiro Comando de Eunápolis, Ednaldo Pereira de Souza, o Dada, uma fuga do presídio em troca de R$ 2 milhões. Nesse meio tempo, Uldurico ainda casou, tendo uma festa de pompa com direito a convidados ilustres no Litoral Norte. Enquanto mantinha relações extraconjugais com Joneuma, que, grávida, viu a vida ir ao fundo do poço. A colaboração foi a alternativa para sobrevivência de uma mulher acuada e abandonada.
Só que a delação não levou apenas Uldurico Jr. ao olho do furacão – e consequente prisão. Jogou no colo da administração penitenciária da Bahia a incapacidade de controlar a influência de agentes políticos sobre atividades privativas do Estado. O ex-deputado federal repassava à Joneuma que Geddel Vieira Lima cobrava metade dos dois milhões de reais prometidos por Dada. A ex-diretora do presídio de Eunápolis expunha que, não só ela, mas a cúpula da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocializacão (Seap) fingia não enxergar o crime organizado tomar conta dos centros de detenção. Sob a tutela do MDB, que ficou com uma “secretaria podre”, nas palavras de Geddel, e com anuência do governo Jerônimo Rodrigues.
Aqui, há um ponto de atenção. Geddel vociferou contra Uldurico e as declarações dele à Joneuma. Já o governo optou pelo silêncio, ainda que após a fuga de Dada tenha corrido para tentar estancar a sangria que se abriu. Agora, com a delação, o governo Jerônimo ficou silente demais. E sequer debateu a chance de tornar a Seap mais técnica do que o loteamento político ao MDB, que permanece de dezembro de 2024, na fuga de 16 detentos em Eunápolis, até hoje. Ou seja, justificando os ataques da oposição de que o governo coaduna com o crime – e sem muito esforço (a filiação de Uldurico ao PSDB, no entanto, limita esses ataques).
Para a sorte de Jerônimo, a sintonia entre Ministério Público da Bahia (MP-BA) e a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) tende a conter impactos ainda mais negativos nas acusações de que o governo nada fez para conter o estado paralelo que se formou dentro e fora das prisões baianas. Uldurico Jr. tende a se tornar boi de piranha nesse processo. A não ser que ele opte pelo mesmo caminho da amante. Aí, os dados a serem compartilhados poderiam implicar atores bem proeminentes da política baiana. Ou a operação abafa falará mais alto?



