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    Brasil

    Empresas são peça-chave no enfrentamento à violência de gênero

    Isabela Vieira - Reporter da Agencia BrasilFonte: Isabela Vieira - Reporter da Agencia Brasil1 de abril de 2026Nenhum comentário
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    Empresas têm um papel-chave no enfrentamento à violência contra meninas ou mulheres e devem atuar em três frentes: prevenção, intervenção e acolhimento. A avaliação foi feita nesta terça-feira (31) pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, no Rio de Janeiro.

    Para ele, o setor produtivo também deve provocar transformações culturais necessárias para enfrentar as causas do alto número de feminicídio no país.

    No Brasil, seis mulheres são mortas por dia, de acordo com os mais recentes dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina. Ano passado, foram 2,1 mil vítimas e 4,7 mil tentativas de feminicídios, segundo as estatísticas.

    Durante a participação em evento com representantes de grandes empresas públicas e privadas, liderado pela Petrobras e pelo Banco do Brasil, o secretário-executivo afirmou que a violência de gênero não pode se restringir ao endurecimento da legislação penal, depois do fato consumado. Para ele, o foco deve ser agir antes, na prevenção, começando por estabelecer trabalho livre de violência.

    “Das empresas, o que se espera é a prevenção, a intervenção, o acolhimento, o suporte”, afirmou Rosa.

    Ele participou do evento Responsabilidade Empresarial no Enfrentamento ao Feminicídio, à Violência de Gênero e pela Transformação Cultural, promovido pela Petrobras, Governo Federal e Banco do Brasil, no Museu de Arte Moderna do Rio. No evento, o secretário defendeu também que as empresas cobrem as mesmas práticas de sua cadeia de fornecedores, “indo além de suas fronteiras”.

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    Rosa classificou a não atuação no tema como uma “omissão institucional” das empresas, o que chamou de falha ética. E criticou práticas corporativas que desestimulam denúncias, expõe vítimas ou deixam de punir agressores.

    Segundo ele, empresas que não criam canais seguros de denúncia ou que penalizam as vítimas contribuem para perpetuar o problema.

    “É preciso, óbvio, combater a cultura interna permissiva a qualquer forma de assédio ou de violência”, disse.

    O secretário propôs também que mulheres sejam protagonistas na construção de políticas internas encampadas pela alta gestão. “A cultura só muda quando vem acompanhada de ações cotidianas, concretas e naturais”, afirmou.

    Ao reforçar o compromisso do ministério da Indústria com o tema, Rosa destacou que o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio também inclui o governo e a sociedade civil. Para ele, apenas a atuação conjunta romperá o ciclo de violência: “Essa não é uma pauta para amanhã, já deveria ter sido adotada ontem”, concluiu.

    Exemplos

    No evento, a empresária Luiza Trajano, fundadora da Magazine Luiza, apresentou o Canal Mulher, criado para apoiar funcionárias vítimas de violência doméstica. O modelo foi criado depois que uma funcionária foi vítima de feminicídio em 2017, e conta com suporte de psicólogos e advogados, por exemplo.

    Brasília (DF) 05/03/2026 - Empresária Luiza Trajano durante coletiva no ministério da Saúde, sobre pacote de medidas voltadas à proteção e ao cuidado integral da saúde das mulheres no SUS, em alusão ao Dia Internacional da Mulher.Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

    Ao longo dos anos, a empresa já chegou a pagar aluguel para uma funcionária sair de casa. A estratégia foi aperfeiçoada em 2019, quando o aplicativo da empresa para celulares incorporou um botão de denúncia que aciona o 180 imediatamente.

    “Nós fizemos um pacto, treinamos também homens para identificar e lidar com essa situação, e nunca mais a nossa empresa vai perder uma mulher por essa violência”, disse.

    Trajano elogiou o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, que adotou uma abordagem direcionada aos homens. “O presidente [Luiz Inácio] Lula falou com os homens, e, na nossa empresa, estamos falando direto com eles: olha, vocês precisam atuar, porque um dia pode ser sua filha, uma sobrinha, uma irmã e vocês não sabem. E não é só gente simples, são as secretárias que falam três línguas”.

    Cartazes nas bombas dos postos

    As empresas têm empregado cada vez mais mulheres e é importante que essas mulheres sintam que há um compromisso de seus empregadores com a causa, avaliou a presidenta do Pacto de Promoção da Equidade Racial, Wania Sant’Anna.

    “As empresas têm um papel extraordinário na conscientização da sociedade sobre o quão inaceitável é a violência contra mulher”, afirmou.

    “Os números não são um mero acaso, refletem uma cultura historicamente violenta contra as mulheres e que é tolerada”, avaliou Sant’Anna, citando a gravidade e os requintes de crueldade dos crimes contra elas. “Que sociedade estamos forjando?”, questiona.

    A sugestão da gestora é que cada empresa atue no seu ramo, em diálogo com os trabalhadores e o público. “Se é um posto de gasolina, estampe esse assunto nas bombas. Se você é uma empresa aérea, adesive o seu avião. Aeroportos, trens, metrôs? Comunique-se com os passageiros você mesmo”, recomendou.

    Para apoiar as empresas, a Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Pacto Global. A iniciativa aponta caminhos para que as organizações “tomem ações concretas em direção às transformações que a gente precisa ver na sociedade”, informou a diretora Monica Gregori. Ela palestrou no encontro com as corporações e destacou a importância de as corporações combaterem violências institucionais primeiro.

    “As empresas podem adotar mecanismos de prevenção, desde conscientização, em relação à violência de gênero, pois, o feminicídio é o último ponto dessa violência, como combater o assédio moral e sexual, que a gente ainda vê nas corporações”, destacou Gregori.

    Entusiasta da iniciativa, a primeira dama Rosângela Lula da Silva, destacou o papel das empresas e cobrou apoio a iniciativas que buscam criminalizar a misoginia, da qual a própria tem sido vítima, principalmente nas redes sociais.

    Rio de Janeiro (RJ), 31/03/2026 - A primeira dama do Brasil, Janja Lula da Silva, fala durante evento “Responsabilidade Empresarial no Enfrentamento ao Feminicídio, à Violência de Gênero e pela Transformação Cultural”, promovido pela Petrobras, Governo Federal e Banco do Brasil, no  Museu de Arte Moderna do Rio (MAM). Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    “Quando tentamos entender o porquê dessa escalada da violência, nos deparamos com um ambiente hostil a nós mulheres na internet. Nesse ambiente digital, que parece ser terra de ninguém, vemos a inaceitável proliferação de conteúdos misóginos, violentos e lícitos. Conteúdos que pregam a superioridade masculina e estimulam a violência de gênero”, analisou, citando como exemplo de discurso de ódio e misóginos a troca de mensagens entre a soldado Gisele Alves e o tenente-coronel Geraldo Leite, suspeito de tê-la matado.

    A policial militar foi encontrada morta, com um tiro na cabeça, dentro do apartamento do casal na região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. O rumo da investigação mudou após análise de laudos periciais e de mensagens extraídas do celular dela.

    Papel da mídia

    A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) esteve presente no evento por meio do seu diretor-presidente, Andre Basbaum. Ele defendeu o papel da mídia pública no diálogo com a sociedade.

    “Isso é o que vemos na EBC, na TV Brasil, que é a tela do futebol feminino, nas discussões do nosso jornalismo”, citou, sobre ações do conglomerado de mídia, que administra emissoras de rádio, TV e portais. “Esse é um drama nacional, as taxas de violência são altíssimas, enfrentamos isso com o debate”, completou.

    A diretora de Conteúdo e Programação da EBC, Antonia Pellegrino, acrescentou que as empresas de mídia são responsáveis pela formação do imaginário, que é a imagem mental que as pessoas constroem sobre vários temas. “A nossa programação produz novos imaginários, produz caminhos que tendem a transformar realidades”. 

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    Isabela Vieira - Reporter da Agencia Brasil

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